“Faria tudo mil vezes e repito, eu tenho vergonha do STF”, diz advogado que recebeu ordem de prisão de Lewandowski.

“Faria tudo mil vezes e repito, eu tenho vergonha do STF”, diz advogado que recebeu ordem de prisão de Lewandowski.

Na última quarta-feira, 5, o Brasil ficou horrorizado ao descobrir que o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, deu ordem de prisão a um advogado que falou o que a grande maioria da população pensa: o STF é uma vergonha.


O fato aconteceu durante um voo de São Paulo com destino a Brasília. Cristiano Caiado de Acioli, 39 anos, estava sentado próximo ao ministro e fez uma gravação de protesto com seu celular. Na filmagem é possível escutar Lewandowski, no auto de seu autoritarismo de toga, perguntando: “Vem cá… você quer ser preso?”. Abismado, Cristiano reage: “Chama a Polícia Federal então.” Assim que o avião pousou, Cristiano foi “preso” por um servidor de Lewandowski, que sequer era policial e não quis se identificar. Não foi informado dos motivos pelos quais estava sendo conduzido para a Superintendência da PF em Brasília. “Ele não quis me informar”.  Com o vídeo circulando pelas redes sociais, todo o país se sentiu ofendido pela atitude autoritária do ministro. No Twitter, a hashtag #MePrendeLewandowski chegou aos trending topics.


Leia a seguir a entrevista com Cristiano na íntegra:


Como foi que aconteceu a ordem de prisão? Qual foi a justificativa que te apresentaram?


Cristiano: “Eu não acompanhei a ordem de “prisão”, fiquei muito paralisado ao entender que iria ser preso por ter feito a minha manifestação pontual e respeitosa ao Ministro. Em Congonhas eu notei apenas que ele deu uma ordem de chamar a Polícia Federal. Quando eles entraram na aeronave, eles apenas me questionaram sobre o que estava ocorrendo. Eu disse que nada e lhes contei que apenas havia feito uma manifestação pessoal e respeitosa ao Ministro de acordo com os limites constitucionais. Em Brasília, assim que o avião pousou, quem primeiro adentrou na aeronave e veio me “prender” foi uma sujeito que não era policial, mas se fez passar por um sem sê-lo. Eu perguntei porque eu estava sendo preso, ele não quis me informar. Eu lhe questionei quem era ele, que também não respondeu isso.”


Como foi o processo de atendimento na Polícia Federal?


Cristiano: “Os policiais que me conduziram na viatura da PF até a superintendência foram muito corteses e educados comigo o tempo todo. Eles diziam que não estavam me prendendo, mas em nenhum momento me deram qualquer opção que não fosse a de ser conduzido para a minha detenção. Uma vez na Polícia Federal eu vivenciei um dia muito confuso. Ninguém sabia me explicar a razão, ou fulcro legal da minha detenção. Em nenhum momento me apresentaram uma razão que justificasse a minha detenção. O atendimento da Polícia Federal foi muito moroso, e como disse anteriormente, muito confuso. Ninguém sabia explicar absolutamente nada.”


O que você achou da atitude do Lewandowski? Você irá tomar medidas jurídicas contra o ministro, como, por exemplo, pedir o impeachment dele?


Cristiano: “A atitude do Min. Lewandowski me ofendeu enquanto ser espiritual, ser humano, cidadão, advogado, brasileiro. O episódio deixou patente a vilipendiação dos direitos mais básicos, houve de forma estranha a utilização de toda a estrutura do Estado para reprimir a um anseio democrático. Justo de alguém a quem muitos gostam de enaltecer como um Ministro garantista. Para a minha pessoa não foi dada nenhuma garantia. Nenhum indivíduo deve ser tolhido de seu direito mais puro de se expressar, e a liberdade deveria ser a regra máxima para àqueles que nenhum crime cometeram, para a sociedade. Uma conduta de impor o medo à crítica não é característica de uma democracia, é ferramenta de regimes despóticos. Que país é esse onde temos medo de tudo e agora devemos ter medo até de ter vergonha?”


Sua ação gerou muita comoção. Como você se sente sabendo que as palavras dele se tornaram um símbolo contra a sombra de injustiça que o STF vem lançando sobre o Brasil?


Cristiano: “Eu me sinto imensamente realizado em poder ter dado uma pequena colaboração para injetar coragem, alegria, otimismo e patriotismo em todo o nosso país. As pessoas precisam sim se indignar, elas tem o direito absoluto para isso, e em nosso caso, possuem também todas as razões para tanto. O que me causa tristeza é ver um povo achando normal viver na inversão de valores e submisso ao medo e à apatia. A sociedade brasileira precisa de bons símbolos e precisa lutar para fazer prevalecer uma simbologia que nos erga. O pensamento tem poder, as palavras muito mais, e delas saem grandes e pequenas atitudes que alteraram o universo. O Supremo Tribunal Federal precisa ser repensado, assim como outras instituições, pois os seus componentes não respondem nem a Deus. A Justiça surge não apenas da lei, mas de uma correspondência entre os julgadores e os julgados. Quando se tem uma corte composta por 11 ilhas sem qualquer comprometimento com o distante continente das pessoas com as suas dores e realidade, esse quadro sempre impedirá que tenhamos bons julgados que nos encha de orgulho. Eu não diria que o STF vem lançando uma sombra de injustiça, eu acho que dado todos os acontecimentos, o STF é a própria escuridão.”


O que você achou da projeção da frase “O STF é uma vergonha” nas paredes do prédio do Supremo?


Cristiano: “A projeção da frase “O STF é uma vergonha” nas paredes do prédio do Supremo é um gesto de quem desafia o medo, que jamais deveria ser vivenciado dessa forma em uma democracia; é uma frase de esperança e de conforto para todos que tem otimismo, é um raio luminoso que vai muito além do sentido da visão, é acima de tudo uma porta para que a própria Justiça possa escapar da escuridão a qual ela estar presa. A Justiça quer servir, ela quer ser justa, ela quer realizar. Essa projeção é uma homenagem singela à Justiça, foi um ato de solidariedade a cada brasileiro que acha o absurdo normal, àquele que está sem voz, é sem dúvida alguma algo engasgado na garganta de todos nós.”


Você acha que sofrerá retaliações?


Cristiano: “Eu não acho que eu irei sofrer retaliações. Eu já estou sofrendo, desde ontem, ao ser detido sem crime. É uma luta extremamente desigual. A minha vida pessoal está vasculhada, a minha existência profissional ameaçada. Em todos os campos eu estou enfrentando uma batalha. Toda a estrutura do Estado está sendo usada contra a minha pessoa. Desde ontem eu sou um inimigo do Estado. E quanto ao Ministro nada… Com todo o respeito, eu preferiria estar no lugar de David. Faz parte, não existe vitória sem luta. Faria tudo mil vezes e repito, eu tenho vergonha do STF. Eu queria dedicar as palavras a todas as lideranças que estão nos inspirando a ter coragem. Parabéns pela sua luta MBL.”


***


O Movimento Brasil Livre continuará acompanhando os desdobramentos do caso e dando o suporte necessário para garantir que a liberdade de expressão não será vítima de nenhum aspirante a ditador de toga.

Fonte: MBL


Comentários