Escolas Municipais de Campo Grande tornam-se referência pela inclusão de crianças especiais.

Escolas Municipais de Campo Grande tornam-se referência pela inclusão de crianças especiais.

Em Campo Grande, a rede municipal de ensino tem sido referência de inclusão de alunos com deficiências, já as escolas particulares tem agido de forma inadequada.



"Hoje é difícil ter uma escola pública sem ter alguma criança deficiente e muito difícil escolas particulares que tem crianças com deficiência”, afirma a advogada Thays Violin, mãe da Yasmin Violin (PC).


“Eu sou uma mãe que tem condições de pagar uma escola particular boa para minha filha, mais hoje eu sei que a dificuldade dela em uma escola particular é muito maior do que na pública”, argumenta Thays Castro Trindade Violin, especialista em direito médico da saúde e mãe da Yasmin, com paralisia cerebral (PC).


Pedro Alexandre Ubiali Carvalho, empresário do ramo de transporte de passageiros, confessa que há cinco anos tentou matricular o filho Pedro Henrique Grisoste Ubiali, com paralisia cerebral (PC) em três escolas particulares de Campo Grande MS, mais foi negado a matrícula em todas. “Visitei a escola, disse que queria matricular o meu filho e eles me trataram super bem, quando eu falei que meu filho era especial, eles disseram: “Pai porque você não procura a APAE? A APAE é para esse tipo de criança”. “Aí você sai com os olhos cheios de lágrimas”, relembra o pai emocionado.


A mãe de Pedro Henrique, Silene Grisoste da Silva, auxiliar administrativo, complementa: “As escolas alegavam que era difícil ficar com ele. Além da mensalidade, eles queriam elevar o custo para a contratação de uma monitora”. Por isso optamos pela Escola Municipal Professor Arlindo Lima, que foi excelente; porque nós não temos o custo da mensalidade, eles trabalham a inclusão e o ensino é muito bom, afirma.


De acordo com o Procon Municipal, as escolas não podem fazer a recusa de matrículas e não podem exigir que se contrate um monitor. Não podem dar desculpas de que já acabou a cota, porque a lei não estabelece cota ou vaga, não há limite.


Todos os alunos independentemente da deficiência que possuem, tem direito a freqüentar a escola regularmente, esclarece o subsecretário de Proteção e Defesa do Consumidor, Valdir Custódio.


“Nós precisamos preparar a sociedade. Antigamente o deficiente tinha que se incluir na sociedade, hoje existe leis para os deficientes e a sociedade que tem que se adaptar e respeitar essas leis”. Precisamos de gente humana que saiba respeitar essas individualidades, declara a advogada Thays.


No âmbito Federal, duas Leis disciplinam essa categoria; a lei de inclusão da pessoa portadora de deficiência (Lei Federal n. 7.853/1989, artigo 8) que; “Constitui crime punível com reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos e multa para quem: recusar, cobrar valores adicionais, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar inscrição de aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado, em razão de sua deficiência.”


E mais recente a edição do Estatuto da Pessoa com deficiência (Lei 13.146/2015, artigo 28).  “Ambas as leis retiraram barreiras, que as instituições de ensino, colocavam para admitir no seu corpo discente esses alunos. Essa lei se estende a toda Instituição de Ensino independentemente do nível; primeiro segundo ou terceiro”, alerta o subsecretário do Procon.


A lei já existia quando a família Ubiali não conseguiu matricular o filho em uma escola particular; a mãe explica: “Na época nós éramos leigos, não sabíamos muito e não se falava em inclusão.”


A educação inclusiva para a escola particular, ela vai bem até a educação infantil. A dificuldade vai começar na alfabetização porque eles não têm preparo suficiente para levar à diante, as dificuldades só vão aumentando, afirma Thays.


Thays confessa ainda ter tentado durante dois anos, manter a filha em escola particular em Campo Grande. Mais a experiência não rendeu boas lembranças. “Fora bullying, fora a falta de interação, a falta de inclusão nas apresentações festivas, ainda tinha os passeios aos parques, que a Yasmin não conseguia acompanhar a turma, porque ela usa bengala.”


A Yasmin é um amor de menina, apesar dos problemas, ela aceita e se adapta muito bem a todas as coisas. Hoje com 17 anos e idade cronológica de 10 anos, cursa o 9º ano na Escola Municipal Danda Nunes. Tem dificuldade de coordenação motora, não anda e tem a fala um pouco comprometida. Sua grande paixão é o automobilismo pela sensação de movimento e o seu grande sonho é dirigir, relata Violin.


A advogada declara que ainda existe preconceito, discriminação por parte dos alunos nas instituições particulares. Na escola pública, o tratamento é diferente. Quando eu chego para deixar minha filha, encontro crianças atenciosas e prestativas e isso é uma promoção da escola. Tem que partir de uma conscientização dos educadores.


Segundo Thays as escolas públicas deixam muito a desejar, eu ainda não estou contente. Falta sensibilidade, a atenção, falta melhor capacitação de monitores. Tem que ter uma professora habilitada em pedagogia e especializada em educação inclusiva. E é isso que o estado ainda não esta cumprindo na lei. Pegar uma pessoa despreparada, com baixo salário, não irá resolver.


É uma falta de preparo das escolas, para a adaptação das crianças portadoras de necessidades especiais. Eles precisam ter um mobiliário mais adequado, procurar ter mais rampas e corredores com barras. É difícil para estacionar, eles colocam cone mas ninguém respeita, até mesmo pais de crianças especiais.  O que me faz permanecer é a felicidade da minha filha para ir e voltar todos os dias.



Pedro Alexandre Ubiali depois de anos receosos, optaram por ter mais um filho, para assegurar que na ausência deles; Gustavo Henrique, que nasceu antes dessa reportagem ser publicada, cuide do irmão Pedro Henrique com necessidades especiais (PC).


Pedro Henrique é um príncipe em forma de menino, carrega nos lábios um sorriso largo que sinaliza tranqüilidade, um olhar cheio de esperança e ouvidos atentos, presta atenção as palavras do pai Alexandre.


“O Pedro Henrique nasceu normal, a patologia foi causada por alguma coisa que agente não sabe, pode ter sido orientação errada no posto de saúde porque ele estava com bilirrubina e a enfermeira na triagem, não deixou passar pelo médico e nos orientou voltar para casa”, declara Ubiali Carvalho.


Hoje com 9 anos, Pedro Henrique ficou com a deficiência de Kernicterus e por isso; é portador de paralisia cerebral (PC), ele não anda e não fala. Mais adora jogar videogame, se comunica através de gestos, escreve e baixa jogos no tablet. Uma criança super independente e inteligente, suas notas escolares não me deixam mentir.


Segundo a advogada; as crianças diagnosticadas com alguma deficiência, não é destino. Hoje com o avanço das novas terapias, não sabemos dizer se aquela situação será permanente ou não, se a criança será inserida na sociedade. Sabemos que não tem cura, nasceu PC, vai morrer PC.


“A minha filha era uma que tinha diagnóstico que jamais ia falar, andar, que iria ficar em uma cama e em uma cadeira de rodas. A Yasmin nunca usou uma cadeira de rodas, afirma Thays Violin.


Valdir Custódio finaliza: “Nunca perder de vista a especialidade dessas crianças, elas não são excepcionais, são especiais”. Hoje na sociedade temos a inclusão dos portadores de síndrome de Down, de várias outras deficiências e eu te digo, com o maior desassombro de consciência: “Eu nunca vi ninguém com qualquer excepcionalidade ser acusado de nenhum crime, de nenhum ato imoral, de nada que seja desonesto”. Essas pessoas têm todo o direito de ser incluídas e respeitadas em todos os níveis da sociedade e o caminho para essa inclusão é a educação.



 

Fonte: Tabloide


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